Sobre as novas regras

Desde que eu comecei com o SF1T, a ideia nunca foi escrever apenas para os “iniciados” na Fórmula 1. Eu tenho vários amigos que não são propriamente conhecedores da categoria, mas gostam e têm curiosidade sobre ela. Então, de vez em quando, eu acabo postando um texto mais voltado a esse pessoal.

Vários desses amigos meus têm me perguntado sobre as mudanças nas regras para este ano e, quando eu vou responder, eu vejo que esse seria um assunto interessante de se tratar por aqui. Vai ser um texto mais voltado aos “leigos”, até porque os “iniciados” já estão mais do que por dentro do assunto.

Quando se fala nessas mudanças, pensa-se primeiro na adoção dos motores turbo. É um ponto importantíssimo, mas não é o único. E não é só no regulamento técnico que vai haver mudanças, o regulamento desportivo também terá algumas diferenças bem importantes em relação a 2013, além de mudanças que visam melhorar as condições de segurança da categoria. Vou falar aqui das principais.

Regulamento Desportivo:

Para começar, o regulamento desportivo é aquele que versa sobre o formato da competição, pontuação, punições, etc. Vamos às principais mudanças nessas regras.

Mudança na pontuação do último GP – A partir desse ano, o Grande Prêmio que encerra a temporada (no caso de 2014, o GP de Abu Dhabi) terá sua pontuação dobrada. Ou seja, em vez de os dez primeiros receberem, na sequência, 25, 18, 15, 12, 10, 8, 6, 4, 2 e 1 pontos, passarão a receber 50, 36, 30, 24, 20, 16, 12, 8, 4 e 2 pontos. O motivo dessa mudança, segundo a FIA, é a possibilidade de manter a disputa pelo título aberta até a última corrida do ano.

Mudanças nas punições para pilotos infratores – Os pilotos que cometerem infrações durante treinos, classificação e corida, terão punições mais rígidas, a partir dessa temporada. Será adotado um sistema de pontuação nas superlicenças, bastante similar ao que os motoristas recebem em suas habilitações. Se ao longo de um período de 12 meses o piloto tiver 12 pontos na superlicença, ele é automaticamente suspenso da corrida seguinte em que ele marcar o 12º ponto. Os pontos valem por 12 meses, sendo que quando vence o período (ou no caso do piloto ter cumprido a suspensão) eles são retirados. O número de pontos será aplicado de acordo com o tipo de incidente, variando de 1 a 3. As punições para saídas consideradas inseguras ou arriscadas em pit-stops também sofrem mudanças e ficam mais rígidas. No caso da infração acontecer na classificação, o piloto perde 10 posições no grid da corrida e, no caso de acontecer na corrida, perde 10 posições no grid da prova seguinte.

Mudança na numeração – A numeração dos carros também sofrerá alterações. Agora os pilotos escolhem o número que querem usar, e podem o manter durante toda a carreira independente da equipe ou posição final no campeonato. A única exceção fica com o número 1, que continua só podendo ser usado pelo campeão, mas não existe mais a obrigatoriedade deste o usar. Além disso, os números serão pintados em tamanho maior nos carros para uma melhor identificação.

Regulamento Técnico:

O regulamento técnico é o que versa sobre a parte mecânica e aerodinâmica, sobre o carro, em si. E as mudanças serão bem radicais, Vamos a elas.

Mudança no conjunto motor/câmbio/recuperação de energia – As mudanças nos motores são o grande assunto e a maior mudança no regulamento técnico nos últimos 25 anos. A partir desta temporada, os motores V8 de 2.4 litros dão lugar a unidades turbocomprimidas V6 de 1.6 litro. Esses motores terão ajuda de um novo sistema de recuperação de energia, o ERS (Energy Recovery System), que substituirá o atua KERS (Kinetic Energy Recovery System). A principal diferença entre os dois sistemas é que o atual recupera energia cinética das freadas para carregar uma bateria que, quando acionada, gera cerca de 80cv extras por 7 segundos. Já o novo sistema, irá recuperar energia de duas fontes: além da energia cinética das freadas, irá, também, recuperar energia térmica gerada pelo duto de escapamento, gerando cerca de 160cv extras, por 33 segundos. O conjunto motor/ERS irá gerar, no total, aproximadamente 760cv de potência.

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O câmbio passa a ter 8 marchas e a relação de marchas não poderá ser mudada ao longo da temporada. Quanto ao escapamento, este terá um único duto de saída (até este ano eram dois), e não deverá direcionar o fluxo dos gases de forma a atuar como elemento aerodinâmico. As equipes só poderão usar 5 motores por carro, por temporada (contra 8 de 2013) e os câmbios deverão durar 6 corridas (contra 5 de 2013).

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Mudanças na relação de peso e combustível – Como a adoção de motores turbo V6 de menor cilindrada e o ERS visam, principalmente, economia de combustível e redução de emissões, a relação do combustível também será alterada. Os carros não poderão gastar mais do que 100 Kg de gasolina por corrida, então as equipes e pilotos terão que se virar para diminuir ao máximo o consumo sem afetar (demais) a performance.

Mesmo com o motor menor e mais leve e a menor quantidade de gasolina embarcada, o peso mínimo regulamentar dos carros irá aumentar, muito em parte por causa do sistema de recuperação de energia, que será maior e mais pesado que o atual.

Mudanças na aerodinâmica e pneus – Outro ponto que terá muitas mudanças será a aerodinâmica dos carros. A altura do bico será abaixada, passando dos atuais 55 cm para 18,5 cm, a asa dianteira diminui 15 cm, passando dos atuais 180 cm, para 165 cm. A asa traseira perde a lâmina inferior, e seu ângulo de profundidade passará de 22 cm, para 20 cm. O DRS terá seu ângulo de abertura aumentado de 5 cm para 7 cm.

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Os sidepods também sofrerão alterações. Serão aumentados para permitir maior entrada do fluxo de ar para os radiadores. Os pneus também serão diferentes. Embora ainda pouco se saiba deles, os testes feitos no Barein indicaram que os tempos serão mais lentos, ou seja, existe a possibilidade de os pneus serem mais duros.

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Mudanças nos testes – As equipes terão mais oportunidades de testar em 2014. Até agora, os testes em pista eram proibidos ao longo da temporada, restando às equipes apenas as atividades de pré-temporada e os testes de novatos ao final dela. Neste ano, as equipes terão quatro atividades em pista ao longo da temporada. Em compensação, os testes em túnel de vento serão limitados, visando redução de custos.

Segurança:

Também teremos modificações nas questões de segurança, como a diminuição da velocidade nos boxes de 100Km/h para 80Km/h nas corridas, e a obrigatoriedade das equipes de pit usarem proteção na cabeça em todas as sessões. Os carros contarão com um dispositivo de segurança na parte frontal, visando à proteção contra batidas, peças soltas, e outras coisas do tipo.

Considerações:

Todas essas mudanças visam trazer mais competitividade, segurança e deixar a Fórmula 1 mais alinhada com os novos tempos de economia e sustentabilidade.

Existem ideias muito boas, como a adoção dos motores turbo e do ERS, no lugar do KERS, e mesmo a obrigação de maior durabilidade de componentes (motor e câmbio) e economia de combustível. As tecnologias híbridas são uma realidade no automobilismo já há algum tempo, e a prova é o sucesso da Audi e seus R18 e-tron em Le Mans e no WEC, e já estão nas ruas também. Do ponto de vista da competição, essa mudança radical pode criar um novo equilíbrio de forças entre as equipes de ponta (acho pouco provável algum tipo de surpresa como uma equipe média dar um salto de qualidade, e entrar no grupo das grandes), onde quem conseguir ter uma melhor leitura do regulamento e até mesmo achar brechas, poderá sair em grande vantagem. Do ponto de vista do desenvolvimento, essas tecnologias poderão aproximar mais a Fórmula 1 das ruas, o que tende a atrair as montadoras de volta à categoria, como é o caso da Honda, que já anunciou a sua volta como fornecedora de motores em 2015. Além disso, tem o ponto de vista do marketing. A adoção de tecnologias mais limpas, a redução de consumo e emissões, pode significar uma bela forma de a Fórmula 1 atrair a simpatia de setores ligados à preservação ambiental e sustentabilidade, inclusive com a possibilidade de atrair patrocínios de empresas desses setores.

Já sobre as mudanças aerodinâmicas, eu tenho certas ressalvas. Embora ainda ache o DRS um recurso muito artificial, o aumento do ângulo de abertura do mesmo pode ser uma boa, já que terá ainda mais diminuição de arrasto aerodinâmico, podendo gerar mais ultrapassagens. Em compensação a diminuição da asa dianteira expõe mais os pneus dianteiros e combinada com o novo bico, vai aumentar a área frontal dos carros, causando uma sensível diminuição das velocidades e, consequentemente, o aumento dos tempos de volta. Eu sei que essa é a intenção, mas acho meio desnecessário. Lógico que a mudança no bico também traz uma preocupação com a segurança, já que diminui muito os riscos para os pilotos no caso de colisões laterais, ou mesmo frontais. Mas tem esse efeito colateral.

A volta dos testes de meio de temporada, mesmo que em número relativamente pequeno, também é uma boa notícia, já que pode promover algum desenvolvimento, principalmente relacionado ao powertrain. Mas em compensação, o desenvolvimento aerodinâmico fica bastante restrito com a diminuição dos testes em túnel de vento.

A bem da verdade eu acho mesmo é que esse novo regulamento técnico acabou ficando mais restrito do que o atual. Lógico que no início serão achadas muitas brechas mas, a meu ver, a tendência é uma estabilização rápida e logo vai estar tudo muito engessado novamente. Mas isso não quer dizer que as mudanças sejam ruins.

No caso do regulamento desportivo, a adoção de pontos na superlicença me parece uma solução bem interessante que, por si só, poderia resolver muitos problemas. Mas a FIA insiste em ser mais severa do que deveria e em criar mais punições do que o aceitável. Esse sistema de pontos na superlicença poderia ser aprimorado e enquadrar os casos de saídas de pit-stop ariscadas, em vez de uma punição de dez lugares no grid. A coisa de dobrar os pontos na etapa final da temporada é absurda, e o termo “nascarização da Fórmula 1” é muito bem vindo nesse caso. Tenta criar um equilíbrio artificial no campeonato e vai contra tudo que a tradição europeia do esporte a motor criou ao longo dos anos. Talvez a volta do sistema de descartes, um aumento da “distância” dos pontos, e a diminuição de posições que recebem esses pontos (como o antigo 10, 6, 4, 3, 2, 1) fosse uma solução muito mais coerente com a história da Fórmula 1, para se tentar promover mais equilíbrio na disputa. De legal mesmo, fica a mudança na numeração. Embora eu seja mais favorável ao sistema anterior a 1996, onde a numeração era fixa mas os números pertenciam às equipes, essa mudança pode criar uma identificação muito maior entre os pilotos e público do que acontece hoje em dia.

Uma pequena amostra do que pode vir a ser os sons dos novos motores:

 

6 comentários sobre “Sobre as novas regras

  1. EXCELENTE texto! Bem explicado, fácil leitura, boas fotos… Puta merda! Ainda vou ser assim quando crescer!😉

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    Carlos Roncatti Bomfim.
    PS: só para constar, não é um site para colocar links do seu blog. É um lugar a mais para escrever e ficar ainda mais conhecido

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