Mudanças

A grande notícia do dia é que a Federação bateu o martelo e anunciou as mudanças que serão implementadas na Fórmula 1 já para a temporada de 2017. A rigor, ficou decidido que os carros ficarão mais largos, com pneus também mais largos e a asa traseira mais baixa e também mais larga. O objetivo é que se obtenha mais downforce, aumentando a velocidade em curvas. As previsões são de que os carros fiquem até 3 segundos mais rápidos por volta. Também ficou decidido que os monopostos terão um proteção para cabeça.

Sobre a parte de aerodinâmica, eu tendo a concordar. Acho que tudo que for feito para se deixar os carros mais rápidos é válido, é bom para o espetáculo, é bom para os pilotos e é bom para a categoria em si. Gostei muito da mudança de dimensões dos pneus (passando de 245 para 305 mm na frente, e de 325 para 405 mm atrás), essa medida aumenta consideravelmente a aderência mecânica, trazendo mais uma variável às disputas em pista. Só espero que a FIA e a Pirelli decidam por pneus que não se desgastem tão rápido, como tem sido o modelo atual.

Imagem meramente ilustrativa.

Imagem meramente ilustrativa.

Agora falemos sobre a proteção para a cabeça, no cockpit. Eu não sou do tipo que diz “automobilismo é esporte de risco e danem-se as consequências”. Sim, eu tenho plena consciência de que automobilismo é sim um esporte de risco. Tenho consciência de que os pilotos aceitam assumir esse risco ao entrar em um carro de corrida, mas acredito que, se algo pode ser feito para se diminuir esse risco, que seja feito. Mas eu tenho um problema com relação a esse tipo de dispositivo. Não é nada ligado à tradição do esporte (“monoposto é aberto, se quer carro fechado vai correr de turismo”, ou outras tolices do tipo), mas à própria questão de segurança.

Modelo de proteção de cabeça que será adotado em 2017

Modelo de proteção de cabeça que será adotado em 2017

O modelo que a FIA disse que irá adotar é o conceito HALO, apresentado em 2015. Olhando bem a foto, dá pra identificar problemas com o mesmo. O primeiro e mais óbvio é a barra que fica na frente do cockpit. Sim, na frente da cara do piloto. Obviamente não é uma coluna grega, mas eu acredito que possa causar problemas de visibilidade. A gente sabe que visibilidade não é o forte de carros de corrida, então, tudo que possa vir a trazer mais problemas, deve ser muito bem analisado. Outro grande problema, ao meu ver, são as barras laterais que, se forem fixas, vão atrapalhar, e muito, a entrada e saída dos pilotos no carro (imagina um carro pegando fogo e o piloto tendo que pular aquele troço?). Além do mais, essa estrutura me parece ser eficiente apenas para objetos grandes, como uma asa solta, um pneu, ou mesmo uma colisão como a que aconteceu entre Schumacher e Liuzzi no GP de Abu Dhabi de 2010. Mas não seria efetivo para pequenos objetos, como a mola que acertou a cabeça de Felipe Massa na Hungria, em 2009.

Eu concordo que a busca de mais segurança deva ser um dos objetivos principais da Fórmula 1, mas acredito que a coisa deva ser feita com mais calma, e com mais análise. Sim, analisaram por um bom tempo, mas eu acho que foi pouco, já que a impressão que eu tenho, é que o tiro pode sair pela culatra.

É bom lembrar que as mortes de Justin Wilson (Indy) e Jules Bianchi, que foram o estopim dessa pressa da FIA, não seriam evitadas, infelizmente, por esse dispositivo, dada a natureza de suas lesões.

Tintas

Como acontece todo ano, quando começa a pré temporada, eu resolvo aproveitar o ensejo e tirar as teias de aranha desse botequim. Então vamos tentar, de novo, dar sequência a este blog. Vamos ver até quando eu vou ter disciplina…

O assunto do momento, como não poderia deixar de ser, são os lançamentos dos carros de 2016. Com exceção da Sauber (que só vai mostrar o C35 em março), todo mundo já mostrou os carros novos. Mesmo que já tenham tido atividades em pista, e a Ferrari tenha andado na ponta com Sebastian Vettel, ainda é muito cedo para se falar alguma coisa. Além disso, eu acredito que testes de pré temporada não servem para grandes coisas. As equipes grandes escondem o jogo, costumam fazer simulação de corrida, e as pequenas aproveitam para andar o mais rápido possível, tentando conseguir algum patrocinador de última hora. A menos que aconteçam problemas homéricos, como aconteceram com a McLaren em 2015, ninguém consegue prever muita coisa com base nesses testes.

Então vamos falar das pinturas dos carros.

Mercedes – Elegante, sóbria, discreta, a pintura do W07 segue no padrão que o time germânico vem mantendo desde sempre. Poucas mudanças, com um pouco mais de detalhes em preto e verde, mas sempre mantendo o prata, cor oficial da Mercedes em competições, na maior parte da carenagem. Ninguém esperaria mais do que isso, no fim das contas, mas fica aquele ar de mesmice.

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Ferrari – A máfia de Maranello vem com mais detalhes em branco, homenageando o clássico 312T, de 1976. Não gostei muito, sempre preferi o esquema de cores que eles usaram de meados dos anos 80 ao início dos anos 90 (carro vermelho, asas pretas e rodas douradas). Mas está longe de ser o pior layout do ano.

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Williams – Manteve o patrocínio da Martini, manteve a pintura de 2015, manteve a beleza. Disparada a pintura mais bonita do grid.

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Red Bull – Gostei muito do esquema de cores foscas, o contraste do azul bem escuro com um vermelho bem chamativo. Dá uma certa luminosidade na pintura (não sei explicar direito). O time dos energéticos conseguiu dar uma reinterpretação muito bacana ao seu já clássico layout (Aí Mercedes, dá pra manter a tradição sem ficar na mesmice…)

Benedict Redgrove / Red Bull Content Pool // P-20160222-00041 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //

McLaren – Ao que parece não é a pintura definitiva. De qualquer forma, ficou feio demais e, mais uma vez, frustrou os saudosistas que esperavam o laranja, cor oficial do time, ou a combinação de vermelho e branco, que não faria nenhum sentido, de qualquer forma, já que o layout era usado por conta do patrocínio da Philip Morris e não por causa da Honda.

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Renault – Veio com uma pintura provisória, quase toda preta, sem graça nenhuma. Eu, particularmente, gostaria de ver um layout que remetesse ao RE60, de 1985 (eu também tenho o direito de ser saudosista, né…), que foi o mais bonito da equipe, na minha opinião. Mas deve vir em preto e amarelo, como foi em 2010.

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Force India – Aparentemente nada mudou, me parece ser exatamente aquela mesma pintura meia-boca do ano passado.

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Toro Rosso – Veio com uma pintura provisória, toda em azul marinho, prometendo grandes novidades para quando o layout definitivo for lançado. Aguardemos, pois.

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Sauber – Ainda usando o C34, de 2015, a equipe suíça mostrou uma pintura com poucas diferenças, com jeitão de agência do Banco Brasil, e cara de carro de categoria de base. Feio.

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Haas – Todo mundo esperava um festival de patriotismo ianque no carro da Haas, mas o que se viu foi quase uma cópia da pintura dos carros da Manor até 2015. Não que seja feio, mas tem aquela cara típica de carro de equipe nanica.

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Manor – Se a Haas copiou o estilo deles, a Manor veio com um layout que lembra um pouco os Toleman de 1982/1983, com toques de pinturas típicas da Indy. Nem feio nem bonito, só sem graça mesmo.

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E vocês, o que acharam? Deixem seus comentários e digam qual carro vocês mais gostaram.

Eu também vou reclamar!

O Schelb voltou!

Mais ou menos. Minha intenção é voltar a escrever aqui, mas não esperem textos diários, eu bem que gostaria de fazer isso, mas ainda não consigo achar uma linha para seguir com esse blog. Então peço que tenham paciência comigo.

O que me faz voltar a este boteco é a onda generalizada de protestos com os atuais caminhos da Fórmula 1. Não é segredo para ninguém que a categoria enfrenta uma das maiores, senão a maior crise da sua história. Minha intenção, neste texto, não é tentar apontar um caminho para a solução (se eu tivesse esse caminho, estaria com o emprego do Bernie Ecclestone, e não escrevendo bobagem num blog obscuro). Venho aqui somente para me juntar ao coro dos descontentes e expor minha raiva e frustração diante da situação totalmente absurda que a Fórmula 1 vive.

Primeiramente não há como apontar um culpado, apenas, pela situação. A tendência natural é jogar a culpa no Bernie e no modelo de negócios da categoria que, nos últimos tempos, vem se tornando insustentável. Sim, ele tem sua parcela de culpa. Os valores cada vez mais exorbitantes cobrados aos organizadores dos grandes prêmios é um problema gigantesco. Ninguém quer pagar dezenas e dezenas de milhões de dólares para organizar uma corrida que ninguém quer assistir. O recente GP da Austrália é prova disso: Poucos carros no grid, corrida chatíssima e audiência muito baixa. Ok, tinha uma quantidade de gente razoável nas arquibancadas do Albert Park, mas nós temos que entender que a Austrália é um país onde o automobilismo é um esporte fortíssimo, por isso o público ainda comparece. Mas é fácil, também, perceber que não é mais a multidão que costumava ser antes. Isso porque eu citei uma das mais tradicionais corridas do calendário atual. O que dizer, então, de corridas em países onde praticamente inexiste tradição no esporte? China, Bahrein, Abu-Dhabi e outros são provas cabais disso. Muita ostentação e ninguém nas arquibancadas. Falar da preferência da FOM por esses países (nem tanto) endinheirados é chover no molhado: todo mundo sabe o porquê deles estarem no calendário.

Muitos falam na atual crise econômica, que estourou em 2008, como um outro fator importante neste contexto. Sim, é importante, várias equipes e patrocinadores deixaram a categoria por achar que não vale a pena investir milhões de dólares em um esporte, enquanto passam por uma recessão brava tendo que reduzir investimentos importantes e, até mesmo, demitir funcionários. Logicamente essa crise reflete no calendário. Com os preços já abusivos, os países europeus, os mais atingidos pela crise, têm cada vez mais dificuldade em arcar com os custos de uma coisa praticamente supérflua como a Fórmula 1. O cancelamento do GP da Alemanha não deixa mentir. Mas crises são cíclicas, elas vêm e vão, e a Fórmula 1 já atravessou crises econômicas mundiais piores que essa. E saiu firme e forte.

Um outro fator que eu, particularmente, considero fundamental é o regulamento técnico. Não adianta, ninguém gostou dele. Eu confesso que inicialmente me empolguei com essa coisa do turbo e tudo mais mas, o balde de água fria que veio depois, sossegou meu facho. Nada contra sistemas de recuperação de energia, motores mais econômicos e tecnologia em si, mas isso não combina com a Fórmula 1. O que todo mundo que ver ali é aquela velha mescla de força bruta dos motores com o refinamento aerodinâmico dos chassis. Sistemas híbridos são legais mas, para mim, funcionam melhor numa categoria como o WEC que, além de usá-los de uma forma muito mais interessante que a Fórmula 1, tem uma proposta que combina de verdade com eles. Mas quando eu falo de regulamento, não falo apenas do atual. Falo de todos os erros cometidos pela FIA nos últimos 20 anos, nesse sentido. O principal é a insistência em manter o regulamento técnico extremamente restritivo, forçando as equipes a criarem carros cada vez mais parecidos entre si e podando a criatividade dos engenheiros, fazendo com que inovações realmente interessantes não sejam implementadas. Muita gente acha que isso nivela a categoria e o piloto passa a fazer mais diferença. Mas essa é uma noção falsa. Com um regulamento tão restrito, qualquer um que consiga achar uma brecha vai dominar o campeonato de forma acachapante e não vai dar chance para que ninguém “corra atrás do prejuízo”, pois com regras como congelamento de desenvolvimento dos motores, proibição de mudar relação de marchas ao longo da temporada (olha o ponto ao qual o absurdo chegou!) e restrições no desenvolvimento aerodinâmico, entre outras, não tem como! Quando o regulamento é mais aberto, os engenheiros podem criar, e isso estimula as equipes a manterem a concorrência através do desenvolvimento contínuo de seus carros.

Existem outros fatores importantes, como a escalada dos custos, as restrições para a entrada de novas equipes e o número exagerado de pilotos ruins com “padrinhos ricos”, por exemplo. Tudo isso somado não só fez a Fórmula 1 cair nessa crise, como criou um círculo vicioso do qual a categoria não consegue sair.

O que se vê é uma gritaria pedindo a cabeça do Bernie. Eu concordo que o tempo dele passou, e o modelo que insiste em manter é ridiculamente insustentável. Mas e se ele se aposentar ou mesmo morrer? O amigo Ron Groo levantou a questão em seu blog, hoje. E é notório que é muito difícil pensar num jeito de a Fórmula 1 se reinventar sem ele. Como eu disse anteriormente, não é minha intenção indicar um caminho, mas é óbvio que eu vou dar meus pitacos. O que eu vejo como o ideal a se fazer é a FIA assumir diretamente a responsabilidade pela organização da Fórmula 1, mas fazer do jeito certo, como faz com o WEC. Usando de uma boa estratégia de publicidade; aproximando, de fato, a categoria dos fãs (via redes sociais, aplicativos etc); dando incentivo para que os autódromos e países tradicionais voltem ao calendário e, principalmente, dando liberdade para as equipes desenvolverem sem tantas amarras. Esse é o ponto principal. A coisa sempre funcionou assim, e foi por isso que a Fórmula 1 sobreviveu por tanto tempo. Se todos os envolvidos tiverem esse objetivo em comum, a Fórmula 1 pode voltar a ser uma categoria realmente empolgante, como sempre foi.

Bolacha

O SF1T não poderia, de maneira alguma, deixar de prestar suas homenagens ao grande Luciano do Valle, que nos deixou neste fim de semana. Para celebrar o legado deste grande jornalista, deixo aqui uma de suas melhores narrações: o Grande Prêmio de Las Vegas de 1981, que deu o título a Nélson Piquet.

Vá em paz, Bolacha, o mundo do esporte vai sentir muito a sua falta…

Explicando

Postagem relâmpago, urgente e de última hora, da madrugada (hehehe). O já lendário vídeo da Red Bull explicando as mudanças no regulamento técnico da Fórmula 1 ganhou uma versão legendada em português. Portanto, para quem viu e não entendeu bulhufas do que o sorridente Daniel Ricciardo estava falando, fique à vontade!
Assistam aí!

Barulho

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Bernie Ecclestone resolveu empreender uma cruzada contra os motores V6 turbo. Bem, na verdade, desde que os novos propulsores foram anunciados, o detentor dos direitos comerciais da Fórmula 1 já tinha dado declarações se posicionando contra a mudança. O principal argumento é que devido ao regime de rotação mais baixo, na ordem de 15.000 giros por minuto, contra 18.000 do ano passado, mais o turbo que ajuda a abafar, o som dos motores teria ficado sem graça, sem cara de som de motor de carro de corrida.

Então eu pergunto ao amigo leitor: E daí? Será que isso realmente importa? Eu sei que automobilismo é um esporte que traz à tona as mais variadas sensações, que estimula quase todos os nossos sentidos, e o som dos motores tem sua importância. Mas seria algo tão primordial a ponto de Ecclestone querer iniciar uma “guerra santa” contra Jean Todt e a FIA? Será mesmo que o som é tão mais importante que a competição em si? Ora, o som pode “não ser dos melhores”, mas vale lembrar que a velocidade final dos carros é bem maior do que com os V8. Projeções indicam velocidades próximas a 370 Km/h em Monza!

Todo mundo que acompanha a Fórmula 1 sabe que Ecclestone é um sujeito que não mede esforços para sempre tirar vantagem e ganhar cada vez mais dinheiro, mesmo estando podre de rico e velho o suficiente para saber que não tem necessidade de acumular mais. Todo mundo sabe que ele é um homem inteligente, e que nunca deixa escapar uma boa oportunidade de lucrar. O que eu não consigo entender é o porquê dessa atitude tão, me desculpem, burra, nesse caso. Pensem comigo: O objetivo de se terem introduzido todas essas mudanças foi a economia. Mas é lógico que, a curto prazo, demanda-se um grande investimento. E quem poderia arcar com esse investimento? As grande fabricantes (montadoras). Esse esquema de downsizing, sistemas de recuperação de energia, é tudo que elas precisam para voltar a investir na Fórmula 1. Isso dá uma base REAL de desenvolvimento aplicável em seus carros de rua. Não é à toa que o Grupo Volkswagen, via Audi e agora Porsche, e a Toyota, antes a Peugeot, investem nas corridas de longa duração, que já utilizam tecnologias que permitem o uso em modelos de rua. Não é à toa que a Honda vai voltar à Fórmula 1 em 2015, que se fala numa volta da Ford (inclusive com boatos de que recompraria a Cosworth), que a Mercedes se empenhou tanto no desenvolvimento desse motor, e a Renault, prestes a pular fora, segurou as pontas. Indo contra o novo esquema técnico, tentando forçar seu fracasso, através de uma campanha difamatória, que é praticamente o que ele tem feito, Ecclestone vai contra as maiores interessadas em investir na categoria da qual ele retira seus sagrados milhões a cada fim de semana. Ele age contra seus próprios interesses.

Sinceramente, apesar de saber que essa é uma guerra por dinheiro e poder, é difícil demais saber quais são, de fato, os movimentos de Bernie Ecclestone. Até onde e o que ele está disposto a arriscar nessa sua briga com Jean Todt e a FIA. Nós sabemos que ele não é nenhum louco, ou burro, mas esses últimos movimentos me deixaram com uma pulga atrás da orelha, e certa desconfiança quanto à capacidade estratégica do velho Bernie. Só espero que toda essa confusão não acabe com a Fórmula 1 justamente no momento em que ela começa uma nova fase tão empolgante quanto esta…